O tempo lá fora é seco e as horas

O tempo lá fora é seco e as horas, perturbadas, passam arrastadas, presas a correntes que ninguém é capaz de se livrar. Ao meus pés, estilhaços de um eu que já não mais reverbera, não mais ascende, e com eles a certeza insegura da insuficiência do ser.
Como ser bom o bastante pra caber numa vontade que não lhe pertence?
A expectativa, viva, mata aos poucos os “eus” nos espelhos e por mais que doa, você entrega cada um deles.
Meu âmago revira e, imersa em pensamentos, meus sonhos se desfazem no travesseiro. Acordada, eu sinto cada parte de mim que resta de tudo o que já se foi. Eu vou ser forte de novo. Brisa leve, calmaria.
Mas por hoje, ao perder um pouco de mim mesma, eu me permito ser deserto e implodir em todos os grãos de areia. Me sentir, em cada um deles e tentar ensinar a mim que tudo ainda é o suficiente e que, talvez, eu seja grande demais pra caber em qualquer canto que seja.