porque eu não valia muita coisa

porque você não valia muita coisa

porque eu não valia muita coisa

quem é que vale alguma coisa às seis da tarde na linha azul do metrô?

a moça carinhosamente me olha de canto de olho e me fala obrigada

e eu quero muito sumir dos espaços aos quais a vida me enfiou com a mão grande e forte

eu sempre jurei que era forte até ter de me drogar de ansiolítico pra amenizar o viver

teve uma época crua da vida que eu tinha de ser menos, muito menos, porque era muita dor e a loucura era uma cafetina que me pegaria se eu avançasse o sinal

eu quis muito porque você não valia muita coisa

muito menos eu

e porque o ano tá acabando e algumas arestas ficam na garganta como macacos que se divertem às custas de um dia bonito

você aparentemente era meu dia bonito

mas eu confundi tudo, eu confundi tudo

eu queria correr ir embora agora

as coisas já não fazem sentido

tem doído tanto, tantas coisas

mas que gritei que não me doeriam

quando os ansiolíticos entraram em mim, quando eu entrei mais em mim, quando eu insanamente pedi para o maquinista ligar o trem das onze, quando tudo me queimava e ardia feito bituca de cigarro na mão daqueles que têm medo e fumam

tantos têm medo e fumam

porque hoje me sinto exclusivamente mal, como se este dia fosse excepcionalmente “o dia” para sentir todas as pancadas que meu corpo se negou a receber todos os outros meses

porque você não valia muito

porque eu não valia até entender o que eu era

porque depois de descobrir o meu valor eu passei a doer mais

acho que avancei o sinal