mania de observar as estrelas

Desde pequena eu tenho essa mania de observar as estrelas. Sempre fui dessas menininhas carentes, atentas, sonhadoras. Cresci com as estrelas sendo um certo tipo de refúgio para mim. Um dia eu desabei quando vi minha avó paterna dar uma chinelada no rosto de meu avô, e sei que o amor deles definitivamente havia acabado, mas ele estava doente, numa cadeira de rodas, e tudo que precisava no momento era a ajuda daquela velha mal humorada e nojenta. Pouco tempo depois ele faleceu. E, então, sentei ao chão do muro da minha casa e observei as estrelas, mas dessa vez imaginei ele sendo uma delas, brilhante, encorajadora. Cada perda que tive em minha vida eu a dei uma estrela. Então cresci, descobri que a maioria das estrelas que vejo no céu não são tão recentes quanto eu, sua luz foi originada a séculos de anos-luz atrás, para então ser vista nesse momento. O brilho das estrelas é um brilho passado. E ainda não me decidi se isso foi bom ou ruim para minha mania de observar estrelas. Por um lado eu tenho o alívio de dar uma estrela que veio do passado à alguém que deve estar no meu passado, por outro lado tenho o temor de que as estrelas deixem de ser o meu refúgio por não coexistirem ao mesmo tempo que eu. Mas essa última opção seria trágica, porque as estrelas é o que resta de uma boa parte da minha infância. Tive de aprender a não ser carente, me perdi ao ponto de não ser mais atenta, e me decepcionaram até destruir minha parte sonhadora. Parece dramático, mas acontece todo instante, por todo o mundo.
Yalen Raquel.