Ter uma marca de vendedor



Crítica escrita por:LCFNavarro
Imagine-se caminhando em San Diego, EUA, de repente você é atraído por uma marca, um enorme Z riscado num outdoor. Qual é a primeira coisa que vem à sua mente? Pense... Eu espero... Bingo! Isto mesmo, a Marca do ZORRO! Um herói, imortalizado, que virou lenda nas telas de cinema por Hollywood.  Esta é a história do seu Komab, um VENDEDOR de Marca maior, com V maiúsculo, que tive a honra de ser cliente, amigo, paciente e discípulo.  Em 1.986 eu administrava a fazenda São Pedro, localizada no município de Sorocaba – SP. Era, ou é, uma propriedade de 200 alqueires bem explorados: porto de areia, reflorestamento de eucalipto, bovinocultura de corte e leite tipo B, confinamento, produção de grãos e formação de pastagens, estas atividades mantinham-me ocupado todos os dias da semana. Além de me dedicar às tarefas, de gestor e de técnico, pertinentes ao cargo, eu também atendia aos visitantes de todas as categorias, entre eles estavam os vendedores de ração, produtos veterinários, adubos e insumos necessários para as nossas atividades. Os meus dias eram cheios, desde as 5:00 horas quando levantava até ir dormir, que raramente acontecia antes das 23:00 horas, diria que o meu esforço estava mais para uma competição de triatlon, com provas de caminhada na montanha, cavalgada, rally de trator, desatolar vaca no brejo em plena madrugada, etc... Portanto toda vez que alguém chegava para vender-me alguma coisa era um martírio, naquele tempo eu ainda pensava assim.
A fazenda fazia parte do itinerário de vários viajantes-vendedores que visitavam-nos periodicamente.
Certo dia, absorto pelas tarefas burocráticas em meu escritório, anunciaram a aproximação de um viajante, pelo carro deveria ser o seu Komab. 
Rapidamente fui alertado pelo funcionário mais antigo da fazenda: "Seu Luiz, toma cuidado com este vendedor. O seu Zé, administrador antes do senhor, não gostava dele, dizia que ele era meio doido, que não ia embora enquanto não vendesse alguma coisa."
A partir desta orientação coloquei-me em posição defensiva, não compraria nada que fosse desnecessário.
Após alguns minutos do aviso, adentra ao meu escritório um homem de estatura baixa, de ascendência japonesa, com fisionomia sulcada pela personalidade expressiva, pele amorenada pelo sol, e na cabeça trazia o chapéu de palha. Típico rurícola do interior paulista. Oferecendo-me a destra cumprimentou-me: "Bom dia! Meu nome é Komab, sou vendedor de suplementos minerais para pastagens e lavouras. "Bom dia!" Respondi com um tom de voz que denotava desconfiança. Ao que ele, percebeu, certamente, mas sabiamente não fez alusão.
" Seu Luiz... (quebrou o gelo). Há muito tempo eu visito esta propriedade, antes mesmo de pertencer aos seus atuais patrões, e sinto que a terra já está esgotada, o que pode ser comprovado pelas condições precárias dos pastos e a baixa produtividade da lavoura. O seu antecessor nunca me deu ouvidos, mas espero que o senhor pelo menos me dê a oportunidade de comprovar o que estou afirmando, acompanhando-me até o pasto." Ainda desconfiado assenti com um leve movimento da cabeça.
Chegando lá vi algo inesquecível, causos de caboclo, o seu Komab agachou e pegou um torrão de terra e... Lentamente, pedaço a pedaço, foi experimentando aquele naco de terra, repetiu o mesmo ritual em várias glebas da fazenda, algumas partes possuíam placas de esterco. Estava ficando enojado. E confesso, quase devolvi o café da manhã.
No final daquela espantosa experiência, que mais parecia uma cacofagia do que uma análise de solo, fomos para o escritório. Ao chegarmos, seu Komab despediu-se prometendo trazer um suplemento mineral específico para atender as deficiências da área analisada. Concordei mais por educação do que por convencimento.
Passados alguns dias, volta o seu Komab. "Seu Luiz, aqui está a análise do solo, trouxe alguns sacos da mistura indicada para sua aprovação na prática, se não funcionar não precisa pagar. Até logo! Voltarei dentro de três meses."
Não tive tempo de responder e nem comentar nada.
Depois de três meses tive que redimir-me e, principalmente com o seu Komab, pois o resultado foi a olhos vistos. Mas, o seu Komab não era um vendedor comum, ele reservou-me outras surpresas, uma delas foi a pílula feita de hipófise de carpa indicada para o equilíbrio geral do organismo, e funcionava mesmo...  No entanto, a que mais me marcaria pro resto da minha vida estava por acontecer, no final daquele ano, eu fui um dos dez clientes, escolhidos por intuição, agraciados pelo seu Komab com um calendário. Mas, seu Luiz, preste atenção! (orientava-me seu Komab misteriosamente). Este calendário deverá ser aberto (estava enrolado), apenas no primeiro minuto do ano novo, e ao abrir faça um pedido grandioso.
Fiz como o seu Komab orientara-me. O motivo do calendário era um desenho maravilhoso, uma paisagem que retrata a chegada do Grou no Japão. Esta ave marca o início do plantio após o inverno severo, e portanto simboliza a fertilidade, a abundância, a fartura, a riqueza e tudo que representa a fortuna na vida.
Fiquei muito emocionado com aquele presente, e assim após as festas acabarem liguei para o seu Komab para agradecer-lhe. "Alô! Gostaria de falar com o seu Komab."
-Quem gostaria de falar? Respondeu a voz do outro lado.
-O Luiz, cliente dele, eu quero agradecê-lo e desejar um feliz 97!
-Seu Komab faleceu, ele sofreu um acidente de carro, voltando da fazenda de um cliente, após o natal.
Atônito e sem acreditar, esta foi a última surpresa que recebi do meu mestre, um VENDEDOR de marca maior.


A Marca do Vendedor Originalmente publicado no Shvoong: http://pt.shvoong.com/business-management/human-resources/2100897-marca-vendedor/

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