Quer odiar literatura?



Resumo escrito por:Estesinversos


Com o propósito de analisar o terceiro debate da seção “Desentendimento”, sobre literatura contemporânea (blog do Instituto Moreira Salles em parceria com a revista Serrote, mediado por Paulo Roberto Pires; conferir os quatro vídeos no link abaixo), entre os críticos literários Beatriz Rezende e Alcir Pécora, o colunista Sérgio Rodrigues, da revista Veja (“todoprosa”, 15.04.11; link abaixo), faz o seguinte destaque: “Quer odiar literatura? Estude Letras”. É uma ênfase no desprezo que os cursos de Letras têm para com seus membros que “fazem literatura”.

De fato, segundo Beatriz Rezende, é mais provável que um autor/escritor venha de qualquer curso acadêmico do que de um curso de Letras. Parece uma denúncia, pois ela afirma ainda que “o estudo de literatura é absolutamente culpado pela esterilização da literatura, pela incompetência do autor literário e inclusive pelo leitor e pelo mercado. A verdade é que é muito difícil um jovem interessado em literatura passar num vestibular para Letras e sair dali gostando de literatura. Isso é o que eu acho mais lastimável entre nós. Essa realmente é a nossa grande falência”. Esse caráter denunciativo é mais radicalmente reforçado pelo fato de Beatriz Rezende falar a partir de uma instância acadêmica de peso, a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para desestimular ainda mais um aspirante ao curso de Letras, o colunista da Veja faz um comentário ácido, entre parênteses: “(É isso mesmo, aspirantes a letrados de todo o Brasil: na hora de escolher um curso universitário, talvez não seja má ideia ceder àquela pressão familiar por medicina ou direito, afinal)”.

De qualquer maneira, o conteúdo desse debate é altamente recomendável para todos os alunos e professores de Letras, bem como de cursos que lidem com a linguagem em geral. Além da polêmica acima, outros pontos são de interesse, a saber: quando Pécora afirma que a literatura se transformou no campo “das tias”, em referência à atitude de compadrio instalado pela chamada “Geração 90” (escritores paulistanos) e que há “o risco de comparar autores de origens literárias diferentes, uma vez que haveria um confronto desigual de produção”; e quando Pécora e Rezende apontam a difícil tarefa de estimular o consumo de livros e a formação de leitores, bem como a função de responsabilidade da crítica e da academia para analisar a literatura contemporânea.

Sérgio Rodrigues aponta certo caráter saudosista de alguns aspectos do debate e afirma que essa sensação de encruzilhada na qual a literatura contemporânea se encontra está também presente na maioria das outras sete artes neste início do século XXI. Esse colunista também fecha sua coluna sobre esse debate com duas opções para a literatura brasileira: “construir-se aos olhos do público ao mesmo tempo que constrói um discurso crítico para se autolegitimar; ou o suicídio”. Não concordo que sejam apenas esses os caminhos abertos; especialmente a segunda opção não parece viável, diante do legado que temos e do potencial de novos escritores. Talvez a questão maior seja a adaptação dos escritores, editores e distribuidores aos novos modos de suporte e recepção de obras literárias, sem perder de vista que o talento e a dedicação ao texto ainda são os fatores primordiais no trabalho com a linguagem como arte.


Paradoxo: Quer odiar literatura? Estude Letras Originalmente publicado no Shvoong: http://pt.shvoong.com/humanities/theory-criticism/2148338-paradoxo-quer-odiar-literatura-estude/