Quando Nietzsche chorou



Resumo escrito por:Maria_Truccolo

“Amamos desejar mais do que amamos o objeto de nosso desejo.” A frase do filósofo Friedrich Nietzsche talvez ilustre bem um sentimento muito próprio dele, a melancolia. E a importância deste sentimento para entender o filme

 “Quando Nietzsche chorou” - baseado em obra literária homônima e de estréia do psiquiatra Irvin D. Yalom - se revela quando o filósofo relata um sonho ao seu suposto paciente, Josef Breuer.


Nietzsche sonhou que o pai morto saía nu do túmulo, entrava em uma igreja, e de lá com uma criança nos braços retornava a sua tumba.



 Num primeiro momento, pensava que a criança era seu irmão. Mas, depois percebeu que a tal criança era ele mesmo. Se fosse simples definir melancolia, poder-se-ia dizer que “é a perda de si no outro”, sendo este outro sempre uma figura de suma importância na vida do sujeito. As perdas posteriores de si no outro, então, se repetem.

E esta é a chave para entender mais do que “Quando Nietzsche chorou”, o porquê das lágrimas do mais iconoclasta entre os filósofos. Quem sabe se a iconoclastia de Nietzsche terá sido uma tentativa de “matar” o próprio pai, tão forte que o levara junto para o túmulo, representação rediviva e eterna da sua onipotência, onipresença e onisciência? Assim como se mata um Deus(Pai), para impor a própria lei, e finalmente ser livre. Mas, o filósofo queria mesmo isso? Ou seus escritos mais e antes serviam para socorrê-lo das garras da morte melancólica? Aliás, talvez não haja expressão mais sensível à repetição do passado no futuro do que “terá sido”... (mas esta é outra história).

Lou Andreas-Salomé, belíssima mulher russa, vai à clínica de Breuer pedir que cure seu amigo Nietzsche das fortes enxaquecas que podem levá-lo à loucura. Lou, que depois tornar-se-á uma das discípulas prediletas de Sigmund Freud, antecipa a Breuer que o filósofo apaixonara-se por ela, mas que o amor não fora correspondido, pois seu interesse em relação a ele era apenas intelectual. No momento do pedido de Lou, Breuer está às voltas com “a cura pelas palavras” (the talking cure) de Anna O. (Bertha   Pappenheim).

Anna O. é um caso clássico de histeria, que devido à forte transferência da paciente ao médico e a respectiva contratransferência deste (evidente em sonhos) a sua cliente, o impede de seguir com o tratamento. Anna O. é entregue por Breuer a seu aluno Freud, que dá continuidade à análise. Posteriormente, Freud publica este caso escrito em parceria com Breuer, como um dos estudos que fundamentam a Psicanálise.

Breuer recebe Nietzsche em sua clínica e percebe que a onipotência de seu virtual paciente criará resistência tal a ponto de impedir o tratamento pelas palavras. Relata a dificuldade a Freud, que observa um choque de onipotência entre médico e paciente, e sugere a Breuer inverter os papéis, a fim de tornar Nietzsche mais próximo e íntimo de si. Então, Breuer pede a Nietzsche que o cure, e entra em cena a filosofia clínica.

O roteiro mostra muito bem a diferença entre a técnica psicanalítica, que escuta o inconsciente, e a filosofia clínica, baseada na narrativa consciente, pra dizer o mínimo. Para dizer mais: é uma clínica de aconselhamento, que visa à mudança comportamental do paciente, para que se adapte ao entorno. A Psicologia é "filha" da Filosofia, enquanto a Psicanálise tem filiação na Neurologia (antes de tornar-se o "Pai da Psicanálise", Freud formou-se neurologista) e na Psiquiatria.  

Breuer relata obsessões e sonhos em relação a Anna O. a um Nietzsche atento e preocupado com a cura do seu paciente. Inconscientemente, a história daquela paixão faz com que o filósofo acesse a sua própria tragédia. Ao descobrir que Bertha, nome verdadeiro de Anna O., é o mesmo nome da mãe de Breuer, Nietzsche compreende que o sofrimento de seu paciente se dá pela impossibilidade de realizar sua paixão pela mãe. E que o que sente por Anna O. é apenas projeção.

Este “insight” leva o filósofo a lembrar do sonho que sempre o intrigou, o do pai morto levando-o consigo para a tumba. É o que basta para o desfecho da análise de Nietzsche, conduzida por Breuer. O médico mostra ao paciente que o seu amor nutrido por Lou é uma ilusão. É mais um amor pelo seu próprio desejo e menos um amor pelo objeto em si. A perda do objeto (Lou), então, representa a perda do amor pelo próprio desejo, a perda de si no outro, a melancolia, enfim.

Talvez desiludido, Nietzsche toma um trem para a Itália e lá escreve “Assim falou Zaratustra” (1883/1885), que frequentemente satiriza o Novo Testamento e, segundo o próprio filósofo, trata de ensinamentos para um público além de seu próprio tempo. Nietzsche teria se livrado da perda de si no outro (o pai), fundando uma nova lei? Ou as lágrimas de Nietzsche não passaram de mera ficção?    

Em tempo, Lou Andreas-Salomé tornou-se psicanalista. Entre seus apaixonados conta ainda o poeta Rainer Maria Rilke, mas casou-se com um engenheiro, de quem separou-se depois. Há ao menos uma biografia em língua portuguesa sobre a psicanalista e intelectual, escrita como tese por uma doutoranda pernambucana, e publicada como livro: "Humana, demasiado humana".

Quando Nietzsche chorou Originalmente publicado no Shvoong: http://pt.shvoong.com/entertainment/movies/2089052-quando-nietzsche-chorou/

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