Nova York & outras viagens



Resumo escrito por:Maria_Truccolo
“Nenhum homem deveria passar pela vida sem experimentar pelo menos uma vez a saudável e até aborrecida solidão em algum lugar selvagem, dependendo exclusivamente de si mesmo e, com isso, aprendendo a descobrir sua verdadeira força oculta. – Aprendendo, por exemplo, a comer quando tem fome e a dormir quando tem sono.”

Este trecho na página 37 do livro “Cenas de Nova York & outras viagens”, do escritor beat Jack Kerouac revela um desejo que também pode ser realizado nas cidades. Um vagabundo, como descreve-se o autor, talvez seja mesmo feito desta força solitária e autônoma.


 Mais que prefeito seria se os vagabundos que comem e dormem a hora que querem, porém, não cobiçassem o que não têm porque não querem, não invejassem os bens dos outros nem aceitassem ofertas vindas da compaixão alheia. Paradoxal.

O que se lê em Kerouac é algo de romantismo somado a muito de existencialismo. No romantismo, a melancolia impera. No existencialismo, a invasão do nada, sem grandes utopias que impeçam o total marasmo. A fantasia de ser um nada, sem qualquer coisa, é inundada de real queixoso. Algo de melancolia às vezes é suficiente para acabar com qualquer iniciativa rumo à realização do desejo, talvez porque inclua aí a possibilidade real de frustração. Parece não lhe ser permitido desejar. Ele mesmo não se permite.

E pelo que escreve sobre não ser um vagabundo autêntico, porque se curvou à possibilidade de publicar seus escitos, fica claro que o seu desejo, embora não possa ser declarado (sou, se os outros me reconhecerem, como se não pudesse ir atrás do que desejo), caso a oportunidade apareça, é exercido. Ou seja, ele não é um vagabundo. É um oportunista à espreita e muito atento às ofertas do acaso.


“Dependendo do quão chapado você esteja agora - presumindo que tenha descolado algum lance em uma das esquinas - digamos da Rua 42 ou da Avenida 8, perto da imensa drogaria Whelan, outro antro solitário onde se pode encontrar algumas pessoas - prostitutas negras, damas de andar vacilante em psicose de benzedrina (...)”. (p.19)


No primeiro trecho descrito aqui, Kerouac falava do alto da montanha, completamente só. No segundo, ele fala das ruas de NY. Ou seja, o homem não muda por causa dos lugares. E assim, ele vai apresentando NY sob o seu olhar destruído, mas não destituído de um poético andar cambaleante, que afinal, pouco importa, porque deseja, mas não quer levá-lo a lugar algum. É o que me parece.


Cenas de Nova York & outras viagens Originalmente publicado no Shvoong: http://pt.shvoong.com/books/romance/2349019-cenas-nova-york-outras-viagens/

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