ensinamentos de um livro expandiu-se para o Cristianismo



Resumo escrito por:Carlos Eduardo Bezerra
A destruição dos livros
Carlos Eduardo Bezerra

“E eis que veio uma peste e acabou com todos os homens
Mas em compensação ficaram as bibliotecas.”
(Apocalipse – Sapato florido – Mário Quintana)

A difusão da leitura, da escrita e do livro tornou-se uma diretriz na política cultural do Estado e de inúmeras ONG’s. Editais, feiras, festas e bienais, leis de incentivo e subsídios públicos e privados, bem como pesquisas acadêmicas são o termômetro desse fato


. E as temperaturas aferidas têm apontado para o alto, o que não significa que essa política seja uniforme e de resultados efetivos.
Livros, leitura e escrita, como objetos e práticas, têm a sua história e nela estão inclusas a criação e a destruição. É desta que trata o livro do venezuelano Fernando Báez: História universal da destruição dos livros. O período analisado é longo e serve de subtítulo: “Das tábuas sumérias à guerra no Iraque”, conferindo à obra um caráter panorâmico e político, uma vez que a guerra citada motivou, paradoxalmente, a sua criação. O conceito de livro para Báez é sinônimo de impresso, independentemente da técnica ou do suporte, expandindo, assim, os conceitos de escrita e leitura.
Visitando o Iraque em 2003 para investigar a destruição de bens culturais daquele país após a invasão dos EUA, Báez deparou-se com Emad, um jovem estudante de História na Universidade de Bagdá, que lhe perguntou: “Por que o homem destrói tantos livros?”. Apesar de ser um especialista, Báez silenciou naquele momento e a resposta veio em forma de livro um ano depois. O seu relato é o de uma autoridade no campo da história das bibliotecas e também o de um apaixonado pelos livros desde a infância.
Em História universal da destruição dos livros, os leitores têm a oportunidade de conhecer os motivos, modos e sujeitos que causaram esse tipo de “memoricídio” ao longo de 55 séculos. Os modos vão dos desastres naturais ou provocados, passando pela omissão de autoridades em relação a bens e equipamentos culturais como bibliotecas, arquivos e museus de onde são furtados títulos os mais diversos, até os saques e roubos, estes também feitos com o objetivo de alimentar uma rede de compradores espalhados pelo mundo. O livro em questão está repleto desses exemplos e eles não são “privilégio” de um país ou de um povo em determinado tempo.
Báez dá exemplos ocorridos na Antigüidade e cita o nome de Platão como o de um biblioclasta por, segundo ele, “tentar acabar com os tratados de Demócrito”. No Egito, não foi diferente. O país dos faraós e escribas foi também responsável pela queima de inúmeros papiros. O faraó Aknhatón, que era monoteísta, “foi um dos primeiros a queimar livros”. Ao fugir do Egito em direção à terra proibida, Moisés também destruiu livros: “num acesso de cólera, ele atirou as tábuas e as quebrou ao pé da montanha (Êxodo, 32:19)”, o que não impediu os judeus de guiarem a sua vida pelos ensinamentos da Torá sagrada. A idéia de ter a vida guiada pelos ensinamentos de um livro expandiu-se para o Cristianismo, que no seu início condenou os evangelhos e doutrinas gnósticos.
Na Europa medieval e cristã não foi diferente. Apesar do significativo trabalho dos religiosos copistas, é bastante conhecido o trabalho de censura e de destruição de livros pela Santa Inquisição. Hoje, a Igreja aconselha aos seus fiéis a não lerem O Código da Vinci, de Dan Brown, como também já o fizeram as autoridades religiosas islâmicas em relação aos Versos satânicos, de Salman Rushdie, considerado um inimigo do Islão, que se pauta pelos ensinamentos do santo Alcorão. A destruição veio para a América a bordo das caravelas, provocando o desaparecimento de códices pré-hispânicos.
O Nazismo, antes do Holocausto judeu, praticou uma espécie de bibliocausto iniciado em 30 de janeiro de 1933. Os livros lançados na fogueira parecem ter influenciado a criação dos crematórios. Para Báez, a poesia de Heinrich Heine tinha caráter profético: “Onde queimam livros, acabam queimando homens.” À poesia de Heine juntamos a de Mário Quintana, que nos serve de epígrafe. Nela, os livros só estariam a salvo com a destruição dos homens. Além do caráter de denúncia, o livro de Báez se destaca pelas informações a respeito da milenar aventura do homem de fixar a memória através da escrita, o que também parece significar destruí-la.
História da destruição dos livros Originalmente publicado no Shvoong: http://pt.shvoong.com/f/humanities/history/387967-hist%C3%B3ria-da-destrui%C3%A7%C3%A3o-dos-livros/

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