Nobel da Literatura (1946) é o produto de uma viagem até à Índia,



Resumo escrito por:PedroBC
A mais famosa obra deste Nobel da Literatura (1946) é o produto de uma viagem até à Índia, empreendida nos idos anos 20. O impacto de toda uma atmosfera rica e singular, com seus costumes, ideologias e modos de vida, foi deveras profundo em Hesse, que de forma sublime o reproduziu em cada frase, diálogo e ideia que compõem este livro.

Centrada no brâmane Siddhartha, relata todo o percurso por ele realizado ao longo de sua existência, uma jornada espiritual – tanto iniciática como transmutativa – pelos mais diversos caminhos, com as mais diversas aprendizagens, rostos, contactos e vivências que indelevelmente o marcariam. Ainda que tudo passe, que tudo seja materialmente efémero, qual roupagem antiga que se despe por não mais servir, é a essência de cada elemento que, ao absorvida ser, importa. Assim, Siddhartha, que humildemente apenas sabia pensar, esperar e… jejuar, passa de um disciplinado religioso a um notável homem de negócios, imerso na mundaneidade dos prazeres. No entanto, convém sublinhar a impermanência de todas as coisas, algo que com o desenrolar da obra mais visível se torna e que confere à própria existência um carácter transitório – ainda que esta, em sua génese, seja eterna.

A obra destaca-se pela peculiar forma de sua escrita, bem representativa do tipo de narrativa que apresenta, pela imensa metáfora que é e por suas belíssimas incidências, fazendo da mesma um longo e livre poema (ainda que não se prive da típica racionalidade alemã). A profundidade da mensagem é latente e crescente, isto é, prolifera juntamente com a central personagem da obra, enquanto este persevera no trilhar do seu caminho – como aqueles sábios homens que, sem o saberem, se perdem na selva do mundo apenas para se encontrarem a si próprios. Por isso mesmo se dirá que é uma obra marcadamente filosófica, com nítidas intenções espirituais. E dela se retira, assim, uma longa e proveitosa reflexão sobre o que nos rodeia e sobre nossas existências e formas em que estas são vividas.

Termina, obviamente, como mais se poderia esperar, como sempre terminam as odisseias deste género em específico: a esperada revelação e consequente ascensão. Mas, mais do que o término de algo, que somente marca o início de um outro ciclo, sobressaem os entretantos da narrativa, as passagens que se dotam de dúvidas, dores, sofrimentos, capitulações… Pois são esses sentires que impulsionam a regeneração, a subida a um outro plano de entendimento e acção. Por outras palavras, são as marcas de um processo evolutivo. É esse aspecto que serve de vera inspiração a todos os leitores da obra, mesmo que impregnada de filosofias nitidamente orientais. Contudo, nas próprias palavras de Siddhartha, tudo são «meras palavras», pelo que o mais importante a extrair de cada coisa é a sua essência, a sua condição e sabedoria, algo que cada um de nós apenas de forma muito particular e íntima o poderá fazer.

Emerge assim uma nova e esplendorosa visão que apenas instiga a visão do leitor, fazendo vibrar o carácter unitário que ambas apresentam (apesar da ilusão do separatismo). E nada mais será tão revelador ou divino quanto isso: a consciencialização da unidade de todas as coisas, muito para além da multiplicidade das mesmas. Sim; definitivamente, em “Siddhartha”, a obra, também nós, atentos e receptivos leitores, nos perdemos em cada linha desta jornada – somente para de novo nos encontrarmos com o divino de todas as coisas.

Siddhartha Originalmente publicado no Shvoong: http://pt.shvoong.com/books/classic-literature/2361360-siddhartha/

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